Assumi neste texto a tarefa de descrever, já redescrevendo, parte de minha vivência de tristeza e melancolia, afetos que se renovam ciclicamente, mas cuja regularidade e recorrência têm em mim se exacerbado, a ponto de quase me aniquilar.
Novamente causa-me tristeza ter de recorrer a narrativas que comportem causalidades internas para elaborar minha experiência. Ainda assim, a causalidade de que não posso me desvencilhar justifica-se no fato de estarmos, conforme Leibniz, “no melhor dos mundos possíveis”, ou seja, sem algum tipo de causalidade não se daria a inteligibilidade do mundo. A causalidade, temo-la em nós mesmos e, ao lançarmo-la sobre mundo, Fiat Lux.
Não obstante o fato de a causalidade permanecer-me um fado penoso, dada a minha impotência contra ela, o problema soberano deste texto é a razão da tristeza, seus condicionantes e a possibilidade de afirmá-la na economia total da vida e do desejo.
Desse modo, é mister reconhecer à tristeza sua funcionalidade. De maneira geral, a tristeza é a potencialização de experiências que se instauram na diferenciação em relação a ela. Com isso, procurando-me servir parcamente de Jacques Derrida (1930-2004), alegria e tristeza não são dois extremos de espectro afetivo, mas, em vez disso, afetos que se irmanam e se portam mutuamente como possibilidade. É no aspecto relacional que alegria e tristeza se caracterizam, e sua diferença não é oposição: precisamos de uma lógica que não as rivalize entre si.
A tristeza somente é aniquilação quando subordinada à alegria, numa economia geral da vida que entende ambos os termos em si mesmos, negligenciando o sistema geral que as funda e processa.
Prosseguindo com Derrida, pode-se abolir a essência das palavras tristeza e alegria e transladá-las da condição de significante para a condição de “rastros”, porquanto cada significante só pode ser o que é num sistema de diferenças. Ou seja, o significante “alegria” traz em si o rastro do significante “tristeza”, sendo a recíproca necessariamente verdadeira.
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| Jacques Derrida (1930-2004) |
Fiz menção ao princípio da causalidade no início do texto porque pretendia avaliar sua presença na experiência de tristeza que me traz a este texto.
O fato de poder haver alegria, pelo percurso desta construção, já se afigura uma causa primeira para a tristeza, que por sua vez é também causa de alegria.
Alegria e tristeza são para nós “afetos linguísticos”, isto é, são vividos no universo da linguagem e, por essa razão, tem na linguagem sua terapia e na redescrição uma via de salvação. Em sendo assim, a vivência – em sentido extremado- da tristeza poderia se dar de maneira totalmente outra se a linguagem que a constitui também fosse outra.
O tratamento dado aos afetos pela linguagem, longe de resolver nosso desconforto, tem a vantagem de ir além de uma “política de resultados”, que visaria somente a aplacar a dor e o desconforto.
Urge haurir da inteireza da vida todas as moções criativas e ensejos à criação e desbanalização.
“Eu preciso de uma palavra que me salve.” Viviane Mosé


