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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Lisbon Revisited (1923) (Lisboa Revisitada), de Álvaro de Campos

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul o mesmo da minha infância ­,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

domingo, 26 de junho de 2011

Toda Palavra – Viviane Mosé








Procuro uma palavra que me salve

Pode ser uma palavra verbo
Uma palavra vespa, uma palavra casta.
Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.
Ou palavra muda,
molhada de suor no esforço da terra não lavrada.
Não ligo se ela vem suja, mal lavada.
Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.
Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei
e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.
Penso em quanta fadiga me dava
o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.
Hoje imploro uma fala escrita,
não pode ser cantada.

Preciso de uma palavra letra
grifada grafia no papel.
Uma palavra como um porto
um mar um prado
um campo minado um contorno
carrossel cavalo pente quebrado véu
mariscos muralhas manivelas navalhas.
Eu preciso do escarcéu soletrado
Preciso daquilo que havia negado
E mesmo tendo medo de algumas palavras
preciso da palavra medo, como preciso da palavra morte
que é uma palavra triste.
Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.
Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
Toda palavra é bem dita e bem-vinda.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O gênio de Augusto Cury


Como será que os gregos, que não tinha psicoterapia nem  autoajuda, lidavam com os problemas da existência? Tal pergunta, dada a sua riqueza e importância, merece-nos outro texto, com maiores argumentações.

Augusto Cury

Fica para nós, por ora, a tarefa nada agradável de trazer à baila as pretensões da autoajuda contemporânea, precisamente no tratamento dado por um autor em especial, a saber, Augusto Cury.

Reportemo-nos, neste texto, a uma entrevista concedida à TV Canção Nova, pelo psiquiatra, médico e escritor, segundo seu próprio site; segundo a referida entrevista: médico psiquiatra (a redundância fica por conta do entrevistador), escritor e cientista, pós-graduado em Psicologia Social, pensador, pesquisador de Psicologia, desenvolveu em dezessete anos a primeira teoria brasileira sobre a construção da inteligência, denominada Inteligência Multifocal.
Augusto Cury, ao vir a público, eleva-se como modelo perfeito de amor de si mesmo, admiração de si, confiança em si e na própria genialidade (a despeito de sua situação real e concreta).
Se não, vejamos:
Segundo texto do site Bule Voador*, sua mulher, Suleima, conta que, quando os dois ainda namoravam, Cury certo dia a convidou para tomar um suco. Ao puxar a carteira para pagar a bebida, deixou cair no chão uma série de papeizinhos: eram pensamentos que ele anotava. “Foi então que ele me disse que era uma pessoa meio diferente”, lembra Suleima.
A propósito da diferença que Cury dá mostras de ser, e não somente fazer, o professor do departamento de genética da UFRS, Renato Zamora Flores, testemunha: “Os únicos trechos mais ou menos aproveitáveis (da teoria da Inteligência Multifocal) são versões pobres das ideias de cientistas como o neurologista António Damásio. O resto é pseudociência”.
A diferença que Cury é talvez resida na indiferença a quem se lhe opõe (com argumentos):“Quase ninguém entendeu minha teoria, de tão complexa que ela é”. Noutra parte, precisamente em Nunca Desista de Seus Sonhos: “Falo com humildade, mas, creio, fiz importantes descobertas que provavelmente reciclarão alguns pilares da ciência durante o século XXI”.

Na entrevista do vídeo, Cury faz uma revelação que deveria desorganizar e “enlutar” a comunidade ateia do Brasil e do mundo, causar uma cisão na história do ateísmo: “Fui um dos maiores ateus que já ‘pisou’ na face da terra”. E prossegue: “Talvez mais do que Nietzsche, que escreveu sobre a morte de Deus, do que Marx, que considerou Deus como ópio da sociedade. Para mim, Deus era uma invenção da psique humana, uma construção dos pensamentos, que é (os pensamentos) a minha área de pesquisa. Nesse aspecto, eu fui um ateu científico. Eles (Nietzsche e Marx) combatiam alguns pensamentos religiosos, e por isso baniram a ideia de Deus da sua mente”.
Um dos maiores ateus que já pisaram a face da terra converter-se ao teísmo é mesmo um fato memorável, equivalente em magnitude a uma eventual abdicação da fé por São Francisco de Assis, ou mesmo o papa Bento XVI. Em se postulando a existência de graus variados de ateísmo, Cury poderia estar entre os maiores ateus da história, salvo aqueles que ainda não pisaram a face da terra.
Um ateu geralmente se caracteriza pela recusa absoluta da existência de divindades, o que o diferencia do agnóstico, por exemplo, que procura não se posicionar acerca da existência de alguma divindade. Não há graus de ateísmo, inexoravelmente porque no exato momento em que um indivíduo professa sua descrença, há uma recusa absoluta.  O ateísmo é uma postura em dado momento, daí poder ser abandonado no decorrer da vida.

Há também uma construção impossível a quem entendeu Nietzsche e Marx. Se não, vejamos:
Nietzsche, talvez menos ateu que Cury
Nietzsche, ao escrever sobre a morte de Deus, como disse o psiquiatra, fazia um diagnóstico da desvalorização e esvaziamento de todos os valores superiores, processo que alcança seu apogeu na morte de Deus. Não há no diagnóstico do filósofo uma atribuição a si próprio de tal evento, isto é, de assassinato de Deus.
Karl Marx, por sua vez, via na religião o ópio do povo justamente por entender que a partir dela criava-se um mundo de ilusões que impediam a tomada de consciência das relações de poder e dominação social. O projeto marxista não fazia oposição pura e simples ao pensamento religioso. Tal sistema, através de seu conceito de totalidade, analisa a sociedade, a consciência e as instituições em geral. Propõe, como se sabe, um novo modelo de sociedade. No interior de tal sistema, a religião era apenas mais um elemento, e não o objeto de crítica por excelência.
Marx, a exemplo de Nietzsche,
 pode ter sido menos ateu doque Cury
Mas como Cury justifica seu grau “quase” superior de descrença em relação a Nietzsche e Marx? Tudo indica que simplesmente por considerar que sua atividade, a que ele chama científica, é superior à dos dois autores. Estes, como Cury diz, “combatiam alguns pensamentos religiosos e por isso baniram a ideia de Deus da sua mente”.

Percebe-se, “para além do princípio do prazer e da realidade”, que Cury utiliza sua crença em Deus – que certamente é sentida interiormente com certa vergonha, haja vista a hegemonia ateia no meio científico – para dar ensejo e livre âmbito a sua fantasia de grandeza: ao aderir à fé em Deus Pai e no Deus Filho – não sei se aderiu ao Espírito Santo – Cury se torna um homem superior a Nietzsche e Marx. É somente pelo antigo modo de vida descrente que Cury consegue, entre um público pouco afeito ao pensamento filosófico, superar pensadores imortais.
A resistência obstinada a todo e qualquer princípio de realidade faz de Cury uma criatura um tanto insólita. As sentenças a seguir são de sua lavra:

“Até na matemática as teorias são limitadas. Até nas indiscutíveis operações há limitações, pois 1 mais 1 só é 2 se o primeiro 1 é, em todos os níveis microessenciais, exatamente igual ao segundo 1.”

“Muitos casos de doenças psíquicas de difícil tratamento, inclusive de pacientes autistas, têm sido resolvidos pela terapia multifocal.”

Certamente, há imensa satisfação em construir-se como uma figura de tanta circunstância, de tamanha projeção no futuro da ciência.
Abaixo, vídeo da referida entrevista. Atente-se para o incômodo e mal-estar que o nobre psiquiatra causa ao Professor Felipe Aquino, intelectual da comunidade. Este se sente pequeno ante o gênio que se apresenta diante dele, e faz valer a máxima: “Em terra de cego, quem tem um olho é rei”